Capítulo Um
Um aeroporto pequeno para uma cidade menor ainda
O Aeroporto Colorado Springs recebe em média 2 milhões de passageiros por ano, isso dava mais de 166 mil passageiros por mês e quase 6 mil passageiros por dia. Números impressionantes para um aeroporto tão pequeno, mas a única passageira que realmente importa no momento é Duarte , a garota perdida que havia acabado de desembarcar do voo 0422 que saiu de São Paulo, Brasil, às 19h45 e chegou em Colorado Springs, Estados Unidos, às 11h50 do dia seguinte. Quase 17 longas horas de viagem para chegar em uma cidade minúscula no interior do estado do Colorado, e era exatamente sobre isso que ela reclamava com a mãe ao telefone. “Pense no tanto de cultura que irá aprender, filha” a mais velha argumentava. “Vai ser para o seu próprio bem”. , como seus poucos amigos a chamavam, já tinha sua própria cota de incentivo para aguentar se mudar para outro país no meio do semestre: a saúde de sua avó.
Aquele, na verdade, era o único motivo. Estava longe de se importar com cultura, ainda mais a cultura estadunidense; não havia país mais rico culturalmente do que o Brasil, na opinião dela. Também não se importava em aperfeiçoar seu inglês, ele já era bom o suficiente. As faculdades que agora tinha à sua disposição eram, de fato, muito boas, mas poderia encontrar algo tão bom quanto em seu país, e de graça. De fato, o único motivo para ter deixado o Brasil foi a condição injusta que seu pai, que não foi presente praticamente sua vida inteira, impôs para que aceitasse ajudar nos tratamentos de sua avó materna.
Roberto não era o pai mais exemplar, tampouco era uma pessoa ruim. Ele sabia que havia vacilado demais durante os 16 anos de vida da filha para ela apenas aceitar de livre e espontânea vontade se mudar para outro país, deixando sua avó, sua mãe e sua vida inteira para trás para morar com ele, que nunca foi um pai presente. É claro que ajudaria a avó da menina de qualquer jeito, mas queria poder tê-la ali por um tempo. Gostaria que ela tivesse condições melhores e sabia que em Silver Falls ela teria essa vida.
Ele queria se redimir, de um jeito meio torto, mas com boas intenções. Não que fosse dessa forma que visse as ações do pai. Longe disso, aquilo a deixou mais chateada ainda com Roberto.
— Preciso desligar, mãe. Tenho que ligar para o Roberto.
— Filha, ele é seu pai. Não esqueça de chamá-lo assim, ok? — Paula falou do outro lado da linha. revirou os olhos, mas apenas respondeu com um “tá” mal humorado. — Nós te amamos.
— Também amo vocês — respondeu, sentindo um nó se formar em sua garganta. Ela o engoliu. — Diga à vovó que estou bem e que a amo, ela deve estar ansiosa.
— Você a conhece bem — respondeu a mãe, rindo. — Pode deixar, eu digo a ela.
Assim que encerrou a ligação, Amy buscou pelo nome do pai na agenda. Respirou fundo antes de ligar, avançando para a saída do aeroporto todo decorado por ser feriado de Ação de Graças, empurrando na sua frente o carrinho cheio de malas. Algumas caixas com suas coisas já haviam sido entregues no apartamento de seu pai.
O telefone tocou quatro vezes antes de Roberto atender animado.
— Oi, meu amor! Já chegou?
— Oi… pai — se forçou a responder, estranhando como a última palavra saiu de sua boca. — Estou na saída do aeroporto, onde você está?
— Ah, caramba, você não recebeu meu áudio? Eu não estou aí — disse o homem.
não estava surpresa. Seu pai a deixou na mão diversas vezes desde que fora embora quando ela ainda tinha 7 anos, como quando disse que passariam as férias juntos quando ela fez 10 anos. — já estava no aeroporto com a mãe para buscá-lo quando ele avisou que não poderia mais ir. Ou no aniversário de 15 anos, que ele pagou pela festa, mas não estava lá para ver chorar por terem ido apenas seus dois melhores amigos e alguns familiares que se lembraram. Dançou a dança “pai e filho” com a mãe, e foi a única parte boa da festa inteira.
Ou quando nasceu, já que Roberto chegou apenas horas depois do parto porque estava trabalhando e essa era sua prioridade. Talvez a única, na opinião de .
— Ótimo. E como você quer que eu chegue na sua casa, voando em uma vassoura?
Seu pai riu, como se não tivesse percebido o sarcasmo na pergunta e tivesse levado apenas como uma piada, ou apenas estivesse tentando ignorar o comentário ácido da filha.
— Não, bobinha. Meu motorista já deve estar ai, ele irá te trazer em segurança para a nossa casa.
A forma como ele enfatizou a palavra “nossa” fez as entranhas de se reviraram. Aquela jamais seria a sua casa. Sua casa era o sobrado em que morava com sua mãe e sua avó em São Paulo. Sua casa era onde elas estivessem, e elas não estavam ali.
— Que grande ideia colocar sua filha em um carro com um estranho, Roberto.
Seu pai suspirou do outro lado da linha.
— não é um estranho, . Ele é de confiança, meu braço direito.
— É um estranho para mim…
— Não dificulte as coisas, caramba! — gritou seu pai, fazendo se sobressaltar. Ele respirou fundo. — Desculpa, eu não…
desligou o telefone e o jogou dentro da mochila antes que ele pudesse terminar a frase. Seus olhos encheram de lágrimas ao constatar que sua vida seria aquela agora: vivendo com um homem que não sabia o que era ser pai de uma menina.
Se recuperou para poder seguir em frente. Precisava encontrar para poder sair daquele lugar e se lamentou pela conversa com Roberto não ter durado tempo suficiente para que pudesse ao menos saber as características do tal motorista.
Porém não precisou de muito esforço para reparar no homem de terno e gravata de quase dois metros de altura, com uma placa com seu nome e sobrenome. Duvidava muito que havia mais de uma naquele aeroporto minúsculo, seria muito azar.
era míope, boa parte do tempo usava lentes ou seu bom e velho óculos para poder enxergar alguma coisa, sem eles tudo era um grande borrão. Mesmo assim, ainda era difícil identificar rostos e frases que estivessem muito longe dela; sendo assim, só percebeu que o homem era um garoto adolescente quando caminhou receosa até ele. não parecia ter mais que 17 anos, sua barba ainda era composta por poucos pelos espaçados, considerando que ele a havia tirado recentemente. Já sua altura definitivamente era maior que a da maioria dos adultos ao redor deles.
Quando ele a viu, deu um sorriso enorme e abriu os braços. parou a alguns metros de distância, deixando claro que não daria um abraço em um estranho. Decepcionado, mas compreensivo, ele os abaixou.
— Você deve ser — disse o garoto, simpático. — Sou , motorista do seu pai.
— Por que o Roberto precisaria de um motorista? Ele sabe dirigir.
— Está brincando? — ele respondeu rindo, pegando o carrinho de malas para si e os empurrando em direção à saída. o acompanhou. — Seu pai é um cara ocupado, um dos mais importantes da cidade.
sabia que seu pai fazia algo que lhe dava bastante dinheiro, ele era claramente rico, mas nunca soube bem o que ele fazia. Nunca se interessou, na verdade, em saber a fundo qual era o trabalho do homem e o que o deixou tão rico em questão de anos.
— Não deve ser assim tão difícil, já que a cidade é minúscula.
— Bom, ele é bem importante no estado do Colorado inteiro, para falar a verdade. Talvez em outros estados… outros países…
estreitou os olhos ao sair à luz do Sol forte do meio-dia. Apesar de não ser verão nos Estados Unidos, estava ligeiramente mais quente que no avião, mas ainda tinha uma brisa do outono que refrescava sua pele. Ela seguiu até a Land Rover verde estacionada a alguns metros de distância e paralisou ao lado do carro. Há muitos anos aquele mesmo carro e daquela mesma cor vinham sendo o sonho de consumo de . Tinha o sonho de apenas entrar em um deles, nem que fosse para ir até o final da rua e voltar. Ela tocou o carro, sem acreditar que era do homem que se dizia seu pai. Olhou, então, para , que guardava suas malas no bagageiro.
— Você não é novo demais para dirigir?
riu ao fechar a porta.
— Tenho 17, dirijo oficialmente há um ano.
— E não oficialmente?
Ele riu com ainda mais vontade.
— Vamos, seu pai está ansioso para te ver.
O garoto abriu a porta de trás para , que entrou sem discussão, apesar de achar que seu pai estava completamente maluco de confiar a vida e a segurança da própria filha aos cuidados de um adolescente de dezessete anos.
O interior do veículo cheirava a carro novo e alguma essência de floresta e pinho, tocou o estofado de couro cor de creme com calma, memorizando a textura com as pontas dos dedos. Era tão macio que sua mão deslizava com facilidade. Na parte da frente, admirava a cena pelo retrovisor com um sorriso presunçoso no rosto.
— Esse carro é incrível, não é?
olhou feio para ele. Como resposta, enfiou os fones de ouvido na orelha e os conectou ao celular, ignorando todas as notificações de chamadas perdidas de Roberto. O garoto tentava não levar para o pessoal. Por tudo o que seu chefe lhe contou, tinha todo o direito de estar de mau humor, ele também estaria. Não julgava Roberto, mas havia sido uma das pessoas a dizer que aquilo não era legal. Mas o que sabia, como disse o próprio chefe?
A viagem até Silver Falls era de quase uma hora e, por mais que odiasse admitir, havia sido muito agradável. Roberto não tentou mais ligar, não tentou conversar — além de oferecer água, o que não conseguiu negar — e a paisagem era de tirar o fôlego de tão bonita, observá-la a deixou mais calma. A garota fez questão de tirar algumas fotos para mandar para sua mãe, tendo a certeza de que ela e sua avó iriam adorar os cavalos soltos nas fazendas pelas quais passavam.
Foi fácil reconhecer quando chegaram à cidade. Além da placa enorme “Bem-vindos à Silver Falls”, começaram a aparecer algumas casas, depois comércios e, quanto mais adentravam a cidade, mais movimentada ficava.
Entretanto, não parou em meio à essa movimentação. Eles passaram por prédios, casas, mais prédios e mais casas até sair da cidade. tirou um dos fones e pausou a música, observando a paisagem voltar a ser montanhas e gramados infinitos de um verde perfeito.
— Você errou o caminho?
olhou pelo retrovisor, surpreso por ouvir a voz da garota, e depois conferiu o GPS.
— Não… está certinho.
— É que Roberto disse que morava em Silver Falls e nós passamos…
— Ah, é — riu, entendo a confusão da garota. — Tecnicamente ainda é Silver Falls, na verdade, é a cidade mais próxima. Mas o vinhedo não fica muito longe, só a alguns quilômetros de distância…
Tomada por surpresa, inclinou-se para frente.
— Vinhedo!?
Agora o olhar de pelo retrovisor era confuso.
— O vinhedo do seu pai…
— Ele tem um vinhedo? Roberto é tão rico assim?
— Bom, o dinheiro dele vem do vinhedo… Você não sabia?
apenas negou com a cabeça e se recostou no banco. Nunca teve muito interesse em saber com o que seu pai trabalhava. Para falar a verdade, nunca teve muito interesse na vida inteira de Roberto fora do Brasil. Qualquer que tenha sido o motivo que o fez deixar ela e sua família para trás, ela não quis saber. Não conhecia ninguém da vida dele, não sabia com o que ganhava a vida, não sabia onde morava até aquele momento. Não lhe interessava e achou que seria sempre assim, até ser obrigada a fazer parte desse mundo.
O carro balançou um pouco ao sair da estrada asfaltada para um caminho terroso. olhou pela janela e não pôde deixar de abrir a boca, estava completamente impressionada com a imensidão de videiras pelo caminho e, mais ainda, com a imensidão da casa em que pararam em frente. Não era possível que aquela seria a casa em que iria morar, ela não conseguia mesmo acreditar naquilo. Ainda dentro do carro, olhou em volta em busca de uma equipe de gravação que iria lhe contar que tudo aquilo era uma pegadinha e que ela havia sido enganada. Porém tudo o que encontrou foi , que muito gentilmente abriu a porta e ofereceu a mão para ajudar a garota a sair. Teimosa como sempre, ela não aceitou, o que não surpreendeu , pois àquela altura ele já havia entendido que ela não se abriria tão fácil assim para ele. Como previsto, ela o ignorou e saiu do carro, indo direto pegar uma de suas três malas pesadas. pegou as outras duas.
arrastou a mala pelo chão de pedras até a escadaria que dava para a casa de Roberto — se recusava a chamar aquilo de mansão, apesar de se parecer com uma. Ela olhou para cima, admirando as paredes cobertas por trepadeiras iluminadas pelo sol do início da tarde, só então percebendo o desafio que tinha pela frente. parou ao seu lado e olhou para as escadas, exatamente como a garota fez, mas com um sorriso brincalhão ao invés da cara de desespero que ela fazia.
— Para que academia, certo? — brincou, e depois de rir da própria piada, saiu carregando as duas malas escada acima como se elas não pesassem quase nada.
segurou a alça da mala com as duas mãos e, lentamente, seguiu o garoto. Cada degrau era um sacrifício novo, parecia que a varanda não chegava nunca. Quando pensou estar chegando no céu após a sua morte (ela gostava de pensar que iria para lá quando morresse), encontrou-se com no final da escada. Ela estava ofegante, com seus cachos bagunçados fugindo do rabo de cavalo que havia feito no meio do caminho e o suor escorrendo por sua coluna. Olhou para trás e dessa vez, quando perdeu o fôlego, não foi por causa da escadaria. A paisagem era tão linda que parecia um quadro pintado por Caspar David Friedrich. Para além das videiras, que pareciam infinitas, haviam montanhas enormes e cobertas por uma camada de gelo na ponta. O sol estava se aproximando delas lentamente, pronto para mais tarde se enfiar entre elas e sumir. E o tanto de árvore… os seus olhos acostumados com os prédios de São Paulo não iriam se cansar tão cedo de admirar aquele tanto de verde.
— nha!
Uma voz familiar fez se virar na mesma hora, arrepiando-a inteira. Era estranho ouvir aquele apelido sem ser com o som metálico de um telefone, mas ao vivo, com a voz fresca, era uma novidade que ela ainda não sabia se a agradava.
Saindo da porta dupla de vidro, estava Roberto. Ele era bem mais alto do que se lembrava, e tinha um pouco menos de cabelo quando ainda morava com ela, agora estava comprido, destacando o preto dos fios. Dava para perceber que o tempo e o trabalho em excesso deixaram marcas de cansaço e preocupação em seu rosto, mas ainda havia o charme do qual sua mãe falava quando contava da juventude deles.
Usava roupas sociais de forma despojada como antigamente, isso nunca mudou.
Ele se aproximou da filha com os braços abertos e o sorriso largo onde dava para perceber seus dentes milimetricamente cuidados e brancos combinando com seu tom de pele, o mesmo tom que definitivamente não herdara. A garota deixou que o pai a abraçasse apertado e retribuiu o abraço, não com tanto entusiasmo, apenas porque a voz em sua cabeça disse ser o certo a fazer. A voz exatamente igual a de sua mãe.
— Estou tão feliz em ter você aqui! — ele disse, segurando os ombros da filha e admirando-a dos pés à cabeça. Os olhos do homem marejaram em emoção e sentiu incômodo em encarar diretamente o sentimento estampado em suas orbes, então desviou o olhar. — Está tão grande…
— É, acontece quando os anos passam — foi o que conseguiu dizer, arrancando uma risada do pai, embora não tenha sido com essa intenção.
— Como foi o voo?
— Longo.
— Você deve estar cansada — disse Roberto, apertando o ombro da filha. Todo toque dele era estranho para , mas ela tentava não se esquivar e ser educada, a voz de sua mãe ainda estava em sua mente. — Vou te mostrar a casa enquanto leva suas malas para o seu quarto, certo, ?
— Entendido, chef! — brincou , batendo continência, fazendo Roberto gargalhar. contraiu o cenho ao observar a cena.
Ao entrarem na casa, teve que se esforçar muito para não abrir a boca de tão impressionada que estava. A sala era linda, e era provavelmente do tamanho total do apartamento em que morava com a mãe e a avó, composta por um sofá branco enorme e um tapete igualmente grande. As paredes eram decoradas com quadros bonitos e antigos e diversas plantas secas e vivas estavam espalhadas estrategicamente, compondo a decoração rústica. A única coisa que fez torcer o nariz foi a cabeça de cervo pendurada em cima da lareira de pedras. Fora isso, todo o ambiente era impecável e aconchegante, não podia negar. Se segurou muito para não soltar uma exclamação positiva, não queria dar o braço a torcer.
Roberto mantinha a mão em seu ombro enquanto a guiava, como se tivesse medo de que, caso a soltasse, ela corresse de volta para o aeroporto. Ele não tirava os olhos dela, emocionado por finalmente poder tê-la por perto, como desejou por anos. Não foi o melhor pai do mundo durante toda a vida da garota, mas queria poder mudar isso e sua chance estava bem ali, não podia desperdiçar.
Saindo da sala, eles passaram por um novo cômodo que seria a sala de jantar, novamente com decoração mais rústica e uma mesa grande demais para uma pessoa que morava sozinha, em cima de (que surpresa!) um tapete igualmente grande. Tudo ali era grandíssimo demais, como se o homem tivesse algo a provar com tanta grandeza.
Atravessaram um corredor que dava para um portal curvado onde era a entrada da cozinha. Ela era, como todo o resto, bem espaçosa e com eletrodomésticos novos e refinados, apesar de ainda ter uma decoração mais rústica e sertaneja, como todo o resto da casa. Mas ali, em frente ao fogão e cantarolando uma música feliz estava a grande surpresa do dia.
— , essa é a Marta, minha cozinheira.
olhou chocada para a mulher na sua frente. Ela não devia ser muito mais velha que sua própria mãe, usava calça cargo bege e um tênis branco simples que, de alguma forma, combinava com a camisa azul clara. Um avental jeans protegia sua roupa e seu cabelo castanho estava preso com uma caneta em um coque feito às pressas, com apenas duas mechas mais curtas soltas moldando seu rosto. E nele estava um sorriso simpático e leve que quase fez chorar, sem saber muito bem o motivo. Ela parecia adorável.
A mulher limpou as mãos no avental e sorriu tão largo que seus olhos se fecharam. achou que Marta lhe daria um aperto de mãos apenas, mas foi surpreendida com mais um abraço. Não entenda mal, ela era brasileira, estava mais do que acostumada com abraços e demonstrações de afeto com toque. Todavia, estava no meio de estranhos, cansada, em um ambiente em que ela não queria estar, longe de sua verdadeira casa. Um abraço de uma desconhecida era a última coisa que queria naquele momento. Além de tudo isso, ainda estava em choque com o fato de Roberto ter um motorista e uma cozinheira. Já esperava pelo abraço dele, mas o de Martha a pegou de surpresa; ela não retribuiu.
— É um prazer finalmente conhecê-la — a cozinheira disse ao soltá-la. Parecia não ter se importado pela falta de reciprocidade. — Fiz torta de limão siciliano para mais tarde, seu pai disse que é sua sobremesa favorita.
Depois de alguns segundos de silêncio, Roberto empurrou de leve o braço de com o seu próprio.
— Diz alguma coisa, filha.
— Ahm… obrigada. É sim minha favorita — falou, um tanto perdida.
Agora o sorriso de Marta era de compaixão e compreensão, seja lá o que tivesse compreendido.
— Você está com fome, querida? Quer que eu prepare algo? — perguntou.
— Não, eu almocei no voo.
— Levarei ela ao Lark mais tarde, Marta — Roberto disse com uma piscadela.
— Ah, ela vai adorar! — a mais velha se empolgou, voltando a cuidar das panelas em seguida. — Agora vai conhecer o resto da casa, preciso dar atenção a isso aqui.
saiu da cozinha quase quebrando o pescoço por ainda estar olhando para Martha, achando-a estranhamente parecida com alguém, só não sabia quem. E o cheiro que saía das panelas era de fato delicioso e a deixou curiosa.
Porém não poderia continuar a tour sem fazer um novo comentário crítico enquanto subiam as escadas.
— Primeiro um motorista, agora uma cozinheira? É sério?
Roberto a olhou sem entender o que quis dizer.
— Sou um homem ocupado, . Por mais que eu ame cozinhar, não tenho muito tempo para isso.
— Isso é um gasto inútil de dinheiro.
O homem parou ao lado da primeira porta de um corredor comprido e encarou a filha, parecendo cansado. Seu tom era bem mais baixo quando voltou a falar.
— Eles precisavam de um emprego, . Eu precisava de ajuda. Está longe de ser um gasto inútil, acredite. — Ele abriu a porta. — Esse é meu quarto, ali no fundo tem o closet e o banheiro.
A decoração mudou muito da sala para o quarto, era mais aconchegante e mais pessoal, com tons puxando para o marrom. Poderia enxergar o pai dela ali, passando o final de semana assistindo aos jogos de futebol brasileiro e europeu que perdeu durante a semana; ele a contou que fazia isso em uma das primeiras ligações que fizeram quando ele se mudou há 6 anos, e achou a informação ridícula, porque pensava que ele sentia mais falta de futebol do que dela.
Seguiram para a porta da frente, onde era apenas um banheiro extra, mais completo que o do andar de baixo. A porta seguinte era o quarto de hóspedes onde tinha paredes brancas, um armário de madeira escura, uma escrivaninha e uma cama de solteiro, sem nada de decoração. Em frente à cama tinha um móvel apoiando a televisão e o videogame. Assim como o quarto do pai, aquele era uma suíte.
— Às vezes dorme aí quando vai me buscar tarde de algum lugar ou quando quer ficar jogando até tarde, por isso o Xbox. Quando dá, eu jogo com ele. Podemos jogar juntos qualquer dia.
assentiu, apesar de não gostar da ideia de um garoto estranho praticamente morando no quarto ao lado do seu. Ela soube que seu quarto estava ao lado porque só restou uma porta e quando seu pai abriu, se revelou um quarto todo branco e “cru”. As caixas com suas coisas, que chegaram alguns dias antes, estavam espalhadas pelo chão com suas malas. O quarto era grande, o que àquela altura não era nenhuma novidade naquela casa. Aquele quarto parecia um refúgio estranho em meio a toda essa situação, porque mesmo sendo grande, ainda parecia bem aconchegante. A luz natural que entrava pela janela ia do teto até quase o chão e dava ao quarto uma iluminação amarelada, e a fez se sentir aquecida conforme ela andava entre as caixas de papelão. Embaixo da janela havia uma espécie de parapeito para dentro do quarto onde poucas plantas e algumas flores decoravam o quarto e adicionavam um toque de cor e vida ao espaço ainda vazio e neutro.
O teto parcialmente inclinado dava ao quarto um certo charme e não atrapalhava em nada o seu tamanho. Pelo contrário, ele fazia com que se sentisse menos sozinha de alguma forma, como se menos espaço para ocupar ajudasse a se sentir mais em casa.
A cama era um pouco menor que uma cama queen e parecia tão confortável que foi uma tarefa quase impossível resistir e não deitar no mesmo instante. A roupa de cama branca perfeitamente arrumada e o cobertor rosa suave a convidaram para se aconchegar nelas e esquecer por alguns instantes que ela estava há milhares de quilômetros de distância das pessoas que mais amava.
Ao pensar nisso, ela afastou a mão do tecido macio e perfumado e lançou um breve olhar para Roberto, que esteve observando-a durante todo o tempo com um sorriso no rosto. Sentiu-se imediatamente culpada por ter gostado do quarto.
— Esse é o seu. Sei que parece sem graça agora, mas não quis decorar muito sem te consultar antes, então podemos sair para comprar mais móveis e decorações, mais roupas de cama… — Ele apontou para um dos poucos móveis no quarto, uma estante larga e alta com sete prateleiras. O móvel, na verdade, foi a primeira coisa em que reparou no quarto, mas não quis demonstrar tanta animação na frente de Roberto. — Sua mãe me contou sobre seu hábito de leitura, acredito que metade dessas caixas sejam livros seus, então tomei a liberdade de comprar uma estante. Se não couber todos eles…
— Não tenho tantos livros assim ainda, só essa é o suficiente. — Então, para não parecer tão mal educada, completou: — Obrigada.
Roberto sorriu, sentindo um pouco do peso sair de seus ombros e permitiu relaxar um pouco.
— Vamos lá para fora, não vejo a hora de te mostrar o nosso…
Um toque de celular interrompeu a fala do homem. Ele puxou o aparelho de seu bolso e olhou desapontado para a tela. já pressentia o que estava por vir e não podia dizer que ficou surpresa, pelo contrário: achava que havia demorado até demais.
— Preciso atender isso, filha, mas prometo que quando eu acabar eu te levo lá fora, ok? Ainda tenho muito o que te mostrar.
O homem a deixou sozinha no quarto e foi atender a ligação em seu escritório na outra extremidade do corredor, uma das partes daquela casa que ela ainda não conhecia. sentou-se na cama e olhou em volta. Sentia um misto de cansaço, desânimo e vontade de voltar para o aeroporto e seguir viagem de volta a sua casa de verdade. Ela queria chorar, mas pensou ser cedo demais para isso, afinal, tinha acabado de chegar, então pegou seu celular na mochila. Para sua surpresa (ou nem tanto), não havia nenhuma notificação a não ser por algumas curtidas em sua última atualização no Skoob sobre sua leitura atual, “Percy Jackson e o Mar de Monstros”. Decidiu, então, pegar o livro de dentro da mochila para ler enquanto esperava seu pai voltar e se distrair do fato de que agora era definitivo: estava há muitos quilômetros de distância de sua mãe e sua avó.
não sabia quanto tempo havia se passado, apenas que já havia alcançado mais da metade do livro e o sol que entrava pela janela da sala (para onde ela havia ido para não ficar em meio a bagunça de seu novo quarto) estava mais fraco quando seu pai desceu as escadas correndo com um sorriso amarelo.
— Desculpa, demorou mais do que eu imaginava.
fechou o livro e ficou encarando-o com desânimo. O homem limpou a garganta e esfregou as mãos, dando uma espiada pela janela.
— Acho melhor irmos ao Lark antes de escurecer, amanhã cedo te mostro o resto da propriedade, pode ser?
Sua filha apenas concordou e o seguiu de volta ao carro, dessa vez se sentando na parte da frente com ele. Roberto ligou o rádio e sorriu para a filha, dizendo que ela poderia escolher a música. Como tocava Fleetwood Mac, ela deixou como estava.
A The Lark Cafe era um espaço moderno, mas ao mesmo tempo muito aconchegante. Assim que e Roberto adentraram, o cheiro de café e pão doce invadiu as narinas da garota e ela já estava rendida. O lugar não estava tão cheio, mas as poucas cabeças se viraram para ver quem acabou de entrar. Roberto passou por um cara e o cumprimentou animado, indicando que ela era a filha que ele tanto falava; quis cavar um buraco e se enterrar, mas confessava que saber que ele falava sobre ela para as pessoas não era tão ruim assim.
O homem chegou no balcão com seu sorriso largo e encantador. A mulher do outro lado se virou animada, parecendo genuinamente feliz em vê-lo.
— Haley!
— Se não é o melhor fabricante de vinho do estado do Colorado! — ela brincou, fazendo-o gargalhar. — O de sempre?
— Você já sabe — ele falou. fez uma aposta com ela mesma de que “o de sempre” seria café preto sem açúcar e deu um sorrisinho breve quando viu Haley pegar o bule e despejar quase todo o líquido na caneca branca com o logo da Lark, sem acrescentar um grão sequer de açúcar.
A funcionária, então, se virou para e sorriu com doçura.
— E você deve ser a famosa ! — disse, sorridente. assentiu; era a terceira vez naquele dia que ouvia seu nome ser dito com sotaque e não podia negar, estava gostando. — É um prazer finalmente te conhecer. Seu pai vem aqui todos os dias e fala de você, faz mais de um mês que ele só fala sobre você vir para cá.
olhou para as próprias mãos encostadas no balcão e sorriu. Às vezes sentia uma certa culpa por ser tão dura e fechada com ele, principalmente em momentos como aquele em que pessoas aleatórias deixavam claro o quanto ele se importava com ela.
— O que vai querer?
A garota pensou por um segundo.
— Tem café com leite? Com açúcar.
— Claro! — respondeu Hayley com um sorriso largo e se afastou para pegar o necessário para a bebida. se sentou no banco do balcão e aproveitou para dar mais uma olhada no local.
Havia um grupo de jovens sentados nas poltronas e no sofá ao fundo do café. Estava tendo algum tipo de discussão, era possível sentir de longe a tensão do que acontecia ali. Por mais que uma parte de si estivesse muito curiosa para saber o que estava rolando, outra parte lhe lembrava que não era problema seu e que ela não deveria se apegar às pessoas e histórias daquele lugar, afinal, iria morar ali o mínimo que conseguisse e esperava voltar logo para sua casa. Seguiu essa sua linha de pensamento e tentou ignorar os barulhos que vinham daquela direção.
Não demorou muito para Hayley voltar com sua bebida quente e docinha, a qual ela bebericou e agradeceu a atendente. Seu pai, muito satisfeito com o próprio café, sugeriu que fossem para uma mesa e imediatamente levantou para segui-lo.
Foi tudo muito rápido: no segundo em que levantou da banqueta sentiu algo se chocar contra ela. Houve uma exclamação coletiva de quem presenciou a cena. A xícara se desequilibrou de sua mão e todo o café foi derramado, caindo no que a atingiu. ficou em choque por um segundo até perceber que se chocou com uma pessoa e o moletom dessa pessoa estava todo marcado por sua bebida quente. Só depois reparou no rosto do menino que se esforçava para não encostar o moletom em sua camiseta, mas não focou tanto nisso. O garoto olhava bravo para o estrago que ela havia feito.
— Ah, meu Deus, me desculpe! Que merda, droga! — exclamou, misturando inglês com português e tentando pegar o máximo de papel possível para ajudar a limpar a roupa do garoto já que a sua saiu quase ilesa, atingida apenas por alguns respingos.
Ele finalmente a olhou pela primeira vez. Parecia confuso, tentando entender as palavras que ouviu e tentando reconhecê-la; teve a certeza que nunca a viu antes e que aquele idioma não era nenhum que conhecia. Estava intrigado, mas não era momento para aquilo, os problemas em sua cabeça eram muitos para se deixar distrair. Além do aroma forte de café vindo de sua roupa, o que o fazia lembrar que ele precisava ir embora.
— Está tudo bem… — resmungou.
— Não está não, me desculpe mesmo, eu não te vi! — justificou-se, passando o papel na parte molhada da roupa. — Me deixe secar, se quiser posso levar para lavar e…
— Eu já disse que está tudo bem! — exclamou o garoto, segurando o braço de e afastando-a dele. Em seguida, apenas se afastou e saiu do café um tanto enraivecido.
Os ombros de cederam. Ela tinha a impressão de que aquela raiva não era culpa dela, afinal, ele estava na discussão que ela ouvira há pouco, mas também sabia que não havia ajudado a melhorar as coisas.
Preocupado, Roberto deixou seu café na mesa escolhida e se aproximou da filha.
— O que houve? Você está bem?
— Estou — falou ao olhar com desânimo para sua xícara vazia. — Mas meu café…
— Não se preocupe com isso, já fiz outro — disse Hayley quando apareceu do outro lado do balcão, entregando uma nova bebida quentinha para . — Por conta da casa.
e Roberto agradeceram a gentileza da atendente. Enquanto Roberto voltava para a mesa, olhou para o grupo onde antes estava o garoto em quem ela derrubou o café. Todos a olhavam curiosos e cochichavam algo entre eles, o que a fez se sentir extremamente desconfortável. Voltou para a mesa, mas não se sentou.
— Podemos sentar lá fora? — pediu, indicando as mesas que ficavam na calçada da Lark.
O homem pareceu confuso no começo, mas bastou uma olhada para os jovens atrás da filha, sussurrando coisas no ouvido uns dos outros, para ele entender tudo. Ele concordou sem questionar e a acompanhou até o lado de fora. Por todo o curto caminho, redobrou a atenção para não derrubar nada em mais ninguém.
Tomaram suas bebidas em um silêncio levemente constrangedor, isso porque não conseguia parar de pensar no que havia acontecido a pouco em suas primeiras horas naquela cidade. Já Roberto, honestamente, só não sabia o que conversar com uma garota adolescente que tudo o que sabia era que ela era sua filha, gostava de ler e era obcecada pelo Harry Styles — ainda não sabia se de forma saudável ou não.
— Você quer ir em alguma loja? Passear pela cidade?
olhou surpresa para o pai, já que não o ouviu dizer nada por longos minutos. Pensou primeiramente na livraria que viu quando chegou na cidade, foi a única coisa que chamou sua atenção durante todo o trajeto. Porém estava cansada, com jet leg e sem humor para passear. Queria deitar na cama reservada para ela na casa de seu pai e sonhar que estava de volta ao Brasil, em sua cama de verdade.
— Eu estou um pouco cansada, na verdade… será que podemos voltar para sua casa? Tenho muito o que arrumar ainda.
Foi perceptível a decepção de Roberto, ele sentia que havia falhado em tentar se aproximar da filha no primeiro dia, mas tentou se animar com o fato de que agora teriam muitos outros pela frente para tentar de novo. Ele concordou com ela e anunciou que iria pagar a conta e retornava em alguns segundos. No momento em que Roberto abriu a porta, ele deu espaço para alguns dos jovens passarem antes de entrar.
se levantou ao perceber que eram as mesmas pessoas que estavam com o garoto em quem ela derrubou café e foi atrás deles, que já estavam a alguns passos de distância. Eles pararam quando a ouviram chamar e se viraram surpresos. torceu para não errar nenhuma palavra em inglês e se esforçou para que seu sotaque não fosse assim tão perceptível.
— Vocês viram o que aconteceu lá dentro, né?
O trio era composto por um garoto alto de óculos e cachecol cinza, um loiro pouca coisa mais baixo que o amigo e claramente tímido e uma garota com ar simpático, mas que parecia apressada, sem querer perder muito tempo ali. Apesar disso, assim como os outros dois, ela parecia curiosa com a existência de e o que ela tinha a dizer. Os três assentiram.
— Se o virem, por favor, digam novamente que sinto muito, eu não o vi chegando mesmo!
— Relaxa — o loiro disse com um sorriso leve e simpático e uma voz tão serena que fez querer abraçá-lo. — Meu irmão não é rancoroso.
colheu aquela informação com muito interesse. Ela conseguia ver uma leve semelhança, mas muito leve mesmo.
— E Alex estava com muita coisa na cabeça, provavelmente não te viu levantar — a garota disse e, em seguida, estendeu a mão. — Sou Kiley, esses são Skylar e Nathan. — Apresentou-os de forma respectiva à sua esquerda.
Os dois acenaram com um sorriso e sentia-se muito grata por eles estarem sendo genuinamente legais com ela.
— Obrigada… Mesmo assim, poderiam só reforçar o pedido de desculpas? Não quero ficar manchada no meu primeiro dia aqui.
— Você é a , filha do Sr. , não é? — perguntou Skylar. Em resposta, encolheu os ombros e assentiu. — Bom, se vai morar aqui, então poderá pedir desculpas novamente na segunda-feira.
— Na segunda…?
Os três se entreolharam.
— No colégio — Kiley respondeu, sem entender a confusão da garota.
— Como sabem onde vou estudar?
Novamente o trio se entreolhou e, dessa vez, compartilharam uma risada.
— Se está morando em Silver Springs, querida, só há um colégio de ensino médio para ir.
arregalou os olhos e engoliu em seco. Em seu primeiro ano de ensino médio no Brasil, foi separada de todos os amigos que fez no ensino fundamental por ter ido para outra escola particular e mais cara, porque seu pai achava que seria melhor para o currículo caso ela escolhesse fazer faculdade nos Estados Unidos. Sozinha, ela não se adaptou e acabou sendo excluída pelos colegas, chegando a sofrer bullying. Ela estava para trocar de colégio quando sua avó adoeceu e seu pai aceitou ajudar mais financeiramente com o tratamento dela com a condição de ir morar com ele. Se ela não se adaptasse ao colégio de Silver Springs, para onde mais ela iria?
— Ei, não se preocupa — Nathan falou, percebendo a preocupação na face da garota. — Estaremos lá na segunda, não te deixaremos sozinha no primeiro dia, ok?
Aquilo não deixou mais aliviada, entretanto, ela estava muito grata pelo carinho dos três, então agradeceu antes de eles irem embora prometendo que se veriam depois do final de semana.
Roberto chegou com um saco de papel nas mãos, empolgando-se com os doces que havia comprado para a sobremesa. Seu sorriso se desmanchou quando percebeu a cara fechada da filha e seus braços cruzados. Ela havia levantado a guarda novamente, o que o fez suspirar de frustração.
— O que houve?
— Nada, vamos logo.
saiu andando em direção ao carro sem esperar o pai. O homem respirou fundo e a seguiu. Todo o trajeto foi feito em silêncio, com olhando fixamente pela janela com os fones de ouvidos na orelha e o som alto. Roberto nem ao menos tentou falar com ela, conseguia ouvir a música escapar pelos fone de tão alto que estava e teve anos de convivência com a mãe da menina (e a própria na infância) para saber que quando estavam assim, não adiantava nada tentar conversar. Mas quando chegaram em casa, ele a chamou antes que ela se trancasse no quarto.
— Pode me dizer o que eu fiz dessa vez?
arrancou os fones com impaciência.
— Silver Falls só tem um colégio? — ela perguntou, olhando-o nos olhos. Roberto parecia confuso.
— Sim e ele é ótimo! — ele respondeu, ainda não entendia o problema e como consequência, ficou mais aborrecida e incrédula.
— Você se esqueceu o que aconteceu ano passado!? Eu ia sair daquela escola horrível que você me colocou porque sofri bullying o semestre inteiro e minha vida virou um inferno!
— Eu não esqueci, filha! Mas a Silver Falls High School é um bom colégio, você não sofrerá bullying nenhum…
— Ah, claro, diz isso depois de me trazer para o país em que a cultura do bullying é uma das mais fortes!
A essa altura ela já estava elevando a voz e segurando o choro e o nó na garganta que só naquele momento percebeu estar preso em si durante o dia todo. Martha e , que estavam na cozinha, foram até a sala de estar entender o que estava acontecendo.
— Isso não vai acontecer aqui!
— Certo, porque você nunca erra, né, Sr. Perfeito? Será que finalmente vão te dar o prêmio de pai do ano?
— Acho que não, , já que aparentemente eu nunca acerto com você, droga! — ele gritou, passando as mãos pelos cabelos. — Eu só quero viver em paz com a única filha que eu tenho!
— Que não tivesse me largado com minha mãe quando eu tinha sete anos, então!
— Fiz isso por você!
deu uma risada sarcástica.
— Ah, claro, Roberto, a melhor coisa para uma criança é largar ela e se mudar para outro país. Ainda me obrigou a fazer o mesmo com a mamãe!
— Sua mãe concordou que era o melhor para você, ! Veja tudo o que conquistei aqui, agora eu posso te dar o melhor, você não entende isso?
— Não! — gritou. — Não e nunca vou entender! Não importa que merda você cultiva no seu quintal…
— Fale direito comigo, !
—… ou o quão grande seja a porcaria da sua casa! — ela berrou aos soluços, com as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto. Em um tom bem mais baixo, ela completou. — Eu não quero você. Eu quero a minha mãe e a minha avó.
Um silêncio absoluto se instalou no local. Roberto não tinha mais argumentos ou forças para brigar, seus próprios olhos estavam marejados e o nó em sua garganta estava doendo. Ele sentia que, se tentasse falar algo, só pioraria a briga.
Martha se aproximou de ambos com cautela.
— Por que não vamos comer? Uma boa comida sempre ajuda a acalmar os ânimos.
olhou bem para a mulher e sentiu seu corpo inteiro tremer de raiva. Ela negou e deu as costas para os presentes, batendo os pés com força em cada degrau ao subir a escada até seu quarto, onde ela bateu a porta com a mesma força.
Roberto olhou para as próprias mãos e constatou que também tremia de raiva. Ele as fechou e olhou para Martha, pedindo por ajuda em silêncio. A mulher trabalhava para ele há tempo suficiente para entendê-lo dos pés aos fios de cabelo no topo de sua cabeça; ela se aproximou e o abraçou, permitindo que ele chorasse em seu ombro.
— Eu não sei o que fazer, Martha! Nada funciona! — disse entre soluços, abraçando-a forte.
— Eu sei, querido, eu sei — ela respondeu, afagando suas costas como se ele fosse um bebê chorando porque queria a mãe. — Dê um tempo a , ela acabou de chegar e é tudo novo para ela.
O homem soltou o abraço, secando as lágrimas e olhando envergonhado para ; não queria que o mais novo pensasse que ele era um fraco. Odiava chorar na frente das pessoas por esse mesmo motivo.
— Acha que fiz a coisa errada em trazê-la para cá?
Martha negou no mesmo instante.
— Não e logo ela verá que é o melhor para ela, fique tranquilo. Agora vamos comer algo, ok? Depois faço um lanche para .
— Depois podemos jogar futebol no Xbox, eu deixo você ser o Messi desta vez — intrometeu-se , se aproximando dos dois.
Roberto olhou para os dois e sorriu com gratidão.
— O que eu seria sem vocês?
Aquele, na verdade, era o único motivo. Estava longe de se importar com cultura, ainda mais a cultura estadunidense; não havia país mais rico culturalmente do que o Brasil, na opinião dela. Também não se importava em aperfeiçoar seu inglês, ele já era bom o suficiente. As faculdades que agora tinha à sua disposição eram, de fato, muito boas, mas poderia encontrar algo tão bom quanto em seu país, e de graça. De fato, o único motivo para ter deixado o Brasil foi a condição injusta que seu pai, que não foi presente praticamente sua vida inteira, impôs para que aceitasse ajudar nos tratamentos de sua avó materna.
Roberto não era o pai mais exemplar, tampouco era uma pessoa ruim. Ele sabia que havia vacilado demais durante os 16 anos de vida da filha para ela apenas aceitar de livre e espontânea vontade se mudar para outro país, deixando sua avó, sua mãe e sua vida inteira para trás para morar com ele, que nunca foi um pai presente. É claro que ajudaria a avó da menina de qualquer jeito, mas queria poder tê-la ali por um tempo. Gostaria que ela tivesse condições melhores e sabia que em Silver Falls ela teria essa vida.
Ele queria se redimir, de um jeito meio torto, mas com boas intenções. Não que fosse dessa forma que visse as ações do pai. Longe disso, aquilo a deixou mais chateada ainda com Roberto.
— Preciso desligar, mãe. Tenho que ligar para o Roberto.
— Filha, ele é seu pai. Não esqueça de chamá-lo assim, ok? — Paula falou do outro lado da linha. revirou os olhos, mas apenas respondeu com um “tá” mal humorado. — Nós te amamos.
— Também amo vocês — respondeu, sentindo um nó se formar em sua garganta. Ela o engoliu. — Diga à vovó que estou bem e que a amo, ela deve estar ansiosa.
— Você a conhece bem — respondeu a mãe, rindo. — Pode deixar, eu digo a ela.
Assim que encerrou a ligação, Amy buscou pelo nome do pai na agenda. Respirou fundo antes de ligar, avançando para a saída do aeroporto todo decorado por ser feriado de Ação de Graças, empurrando na sua frente o carrinho cheio de malas. Algumas caixas com suas coisas já haviam sido entregues no apartamento de seu pai.
O telefone tocou quatro vezes antes de Roberto atender animado.
— Oi, meu amor! Já chegou?
— Oi… pai — se forçou a responder, estranhando como a última palavra saiu de sua boca. — Estou na saída do aeroporto, onde você está?
— Ah, caramba, você não recebeu meu áudio? Eu não estou aí — disse o homem.
não estava surpresa. Seu pai a deixou na mão diversas vezes desde que fora embora quando ela ainda tinha 7 anos, como quando disse que passariam as férias juntos quando ela fez 10 anos. — já estava no aeroporto com a mãe para buscá-lo quando ele avisou que não poderia mais ir. Ou no aniversário de 15 anos, que ele pagou pela festa, mas não estava lá para ver chorar por terem ido apenas seus dois melhores amigos e alguns familiares que se lembraram. Dançou a dança “pai e filho” com a mãe, e foi a única parte boa da festa inteira.
Ou quando nasceu, já que Roberto chegou apenas horas depois do parto porque estava trabalhando e essa era sua prioridade. Talvez a única, na opinião de .
— Ótimo. E como você quer que eu chegue na sua casa, voando em uma vassoura?
Seu pai riu, como se não tivesse percebido o sarcasmo na pergunta e tivesse levado apenas como uma piada, ou apenas estivesse tentando ignorar o comentário ácido da filha.
— Não, bobinha. Meu motorista já deve estar ai, ele irá te trazer em segurança para a nossa casa.
A forma como ele enfatizou a palavra “nossa” fez as entranhas de se reviraram. Aquela jamais seria a sua casa. Sua casa era o sobrado em que morava com sua mãe e sua avó em São Paulo. Sua casa era onde elas estivessem, e elas não estavam ali.
— Que grande ideia colocar sua filha em um carro com um estranho, Roberto.
Seu pai suspirou do outro lado da linha.
— não é um estranho, . Ele é de confiança, meu braço direito.
— É um estranho para mim…
— Não dificulte as coisas, caramba! — gritou seu pai, fazendo se sobressaltar. Ele respirou fundo. — Desculpa, eu não…
desligou o telefone e o jogou dentro da mochila antes que ele pudesse terminar a frase. Seus olhos encheram de lágrimas ao constatar que sua vida seria aquela agora: vivendo com um homem que não sabia o que era ser pai de uma menina.
Se recuperou para poder seguir em frente. Precisava encontrar para poder sair daquele lugar e se lamentou pela conversa com Roberto não ter durado tempo suficiente para que pudesse ao menos saber as características do tal motorista.
Porém não precisou de muito esforço para reparar no homem de terno e gravata de quase dois metros de altura, com uma placa com seu nome e sobrenome. Duvidava muito que havia mais de uma naquele aeroporto minúsculo, seria muito azar.
era míope, boa parte do tempo usava lentes ou seu bom e velho óculos para poder enxergar alguma coisa, sem eles tudo era um grande borrão. Mesmo assim, ainda era difícil identificar rostos e frases que estivessem muito longe dela; sendo assim, só percebeu que o homem era um garoto adolescente quando caminhou receosa até ele. não parecia ter mais que 17 anos, sua barba ainda era composta por poucos pelos espaçados, considerando que ele a havia tirado recentemente. Já sua altura definitivamente era maior que a da maioria dos adultos ao redor deles.
Quando ele a viu, deu um sorriso enorme e abriu os braços. parou a alguns metros de distância, deixando claro que não daria um abraço em um estranho. Decepcionado, mas compreensivo, ele os abaixou.
— Você deve ser — disse o garoto, simpático. — Sou , motorista do seu pai.
— Por que o Roberto precisaria de um motorista? Ele sabe dirigir.
— Está brincando? — ele respondeu rindo, pegando o carrinho de malas para si e os empurrando em direção à saída. o acompanhou. — Seu pai é um cara ocupado, um dos mais importantes da cidade.
sabia que seu pai fazia algo que lhe dava bastante dinheiro, ele era claramente rico, mas nunca soube bem o que ele fazia. Nunca se interessou, na verdade, em saber a fundo qual era o trabalho do homem e o que o deixou tão rico em questão de anos.
— Não deve ser assim tão difícil, já que a cidade é minúscula.
— Bom, ele é bem importante no estado do Colorado inteiro, para falar a verdade. Talvez em outros estados… outros países…
estreitou os olhos ao sair à luz do Sol forte do meio-dia. Apesar de não ser verão nos Estados Unidos, estava ligeiramente mais quente que no avião, mas ainda tinha uma brisa do outono que refrescava sua pele. Ela seguiu até a Land Rover verde estacionada a alguns metros de distância e paralisou ao lado do carro. Há muitos anos aquele mesmo carro e daquela mesma cor vinham sendo o sonho de consumo de . Tinha o sonho de apenas entrar em um deles, nem que fosse para ir até o final da rua e voltar. Ela tocou o carro, sem acreditar que era do homem que se dizia seu pai. Olhou, então, para , que guardava suas malas no bagageiro.
— Você não é novo demais para dirigir?
riu ao fechar a porta.
— Tenho 17, dirijo oficialmente há um ano.
— E não oficialmente?
Ele riu com ainda mais vontade.
— Vamos, seu pai está ansioso para te ver.
O garoto abriu a porta de trás para , que entrou sem discussão, apesar de achar que seu pai estava completamente maluco de confiar a vida e a segurança da própria filha aos cuidados de um adolescente de dezessete anos.
O interior do veículo cheirava a carro novo e alguma essência de floresta e pinho, tocou o estofado de couro cor de creme com calma, memorizando a textura com as pontas dos dedos. Era tão macio que sua mão deslizava com facilidade. Na parte da frente, admirava a cena pelo retrovisor com um sorriso presunçoso no rosto.
— Esse carro é incrível, não é?
olhou feio para ele. Como resposta, enfiou os fones de ouvido na orelha e os conectou ao celular, ignorando todas as notificações de chamadas perdidas de Roberto. O garoto tentava não levar para o pessoal. Por tudo o que seu chefe lhe contou, tinha todo o direito de estar de mau humor, ele também estaria. Não julgava Roberto, mas havia sido uma das pessoas a dizer que aquilo não era legal. Mas o que sabia, como disse o próprio chefe?
A viagem até Silver Falls era de quase uma hora e, por mais que odiasse admitir, havia sido muito agradável. Roberto não tentou mais ligar, não tentou conversar — além de oferecer água, o que não conseguiu negar — e a paisagem era de tirar o fôlego de tão bonita, observá-la a deixou mais calma. A garota fez questão de tirar algumas fotos para mandar para sua mãe, tendo a certeza de que ela e sua avó iriam adorar os cavalos soltos nas fazendas pelas quais passavam.
Foi fácil reconhecer quando chegaram à cidade. Além da placa enorme “Bem-vindos à Silver Falls”, começaram a aparecer algumas casas, depois comércios e, quanto mais adentravam a cidade, mais movimentada ficava.
Entretanto, não parou em meio à essa movimentação. Eles passaram por prédios, casas, mais prédios e mais casas até sair da cidade. tirou um dos fones e pausou a música, observando a paisagem voltar a ser montanhas e gramados infinitos de um verde perfeito.
— Você errou o caminho?
olhou pelo retrovisor, surpreso por ouvir a voz da garota, e depois conferiu o GPS.
— Não… está certinho.
— É que Roberto disse que morava em Silver Falls e nós passamos…
— Ah, é — riu, entendo a confusão da garota. — Tecnicamente ainda é Silver Falls, na verdade, é a cidade mais próxima. Mas o vinhedo não fica muito longe, só a alguns quilômetros de distância…
Tomada por surpresa, inclinou-se para frente.
— Vinhedo!?
Agora o olhar de pelo retrovisor era confuso.
— O vinhedo do seu pai…
— Ele tem um vinhedo? Roberto é tão rico assim?
— Bom, o dinheiro dele vem do vinhedo… Você não sabia?
apenas negou com a cabeça e se recostou no banco. Nunca teve muito interesse em saber com o que seu pai trabalhava. Para falar a verdade, nunca teve muito interesse na vida inteira de Roberto fora do Brasil. Qualquer que tenha sido o motivo que o fez deixar ela e sua família para trás, ela não quis saber. Não conhecia ninguém da vida dele, não sabia com o que ganhava a vida, não sabia onde morava até aquele momento. Não lhe interessava e achou que seria sempre assim, até ser obrigada a fazer parte desse mundo.
O carro balançou um pouco ao sair da estrada asfaltada para um caminho terroso. olhou pela janela e não pôde deixar de abrir a boca, estava completamente impressionada com a imensidão de videiras pelo caminho e, mais ainda, com a imensidão da casa em que pararam em frente. Não era possível que aquela seria a casa em que iria morar, ela não conseguia mesmo acreditar naquilo. Ainda dentro do carro, olhou em volta em busca de uma equipe de gravação que iria lhe contar que tudo aquilo era uma pegadinha e que ela havia sido enganada. Porém tudo o que encontrou foi , que muito gentilmente abriu a porta e ofereceu a mão para ajudar a garota a sair. Teimosa como sempre, ela não aceitou, o que não surpreendeu , pois àquela altura ele já havia entendido que ela não se abriria tão fácil assim para ele. Como previsto, ela o ignorou e saiu do carro, indo direto pegar uma de suas três malas pesadas. pegou as outras duas.
arrastou a mala pelo chão de pedras até a escadaria que dava para a casa de Roberto — se recusava a chamar aquilo de mansão, apesar de se parecer com uma. Ela olhou para cima, admirando as paredes cobertas por trepadeiras iluminadas pelo sol do início da tarde, só então percebendo o desafio que tinha pela frente. parou ao seu lado e olhou para as escadas, exatamente como a garota fez, mas com um sorriso brincalhão ao invés da cara de desespero que ela fazia.
— Para que academia, certo? — brincou, e depois de rir da própria piada, saiu carregando as duas malas escada acima como se elas não pesassem quase nada.
segurou a alça da mala com as duas mãos e, lentamente, seguiu o garoto. Cada degrau era um sacrifício novo, parecia que a varanda não chegava nunca. Quando pensou estar chegando no céu após a sua morte (ela gostava de pensar que iria para lá quando morresse), encontrou-se com no final da escada. Ela estava ofegante, com seus cachos bagunçados fugindo do rabo de cavalo que havia feito no meio do caminho e o suor escorrendo por sua coluna. Olhou para trás e dessa vez, quando perdeu o fôlego, não foi por causa da escadaria. A paisagem era tão linda que parecia um quadro pintado por Caspar David Friedrich. Para além das videiras, que pareciam infinitas, haviam montanhas enormes e cobertas por uma camada de gelo na ponta. O sol estava se aproximando delas lentamente, pronto para mais tarde se enfiar entre elas e sumir. E o tanto de árvore… os seus olhos acostumados com os prédios de São Paulo não iriam se cansar tão cedo de admirar aquele tanto de verde.
— nha!
Uma voz familiar fez se virar na mesma hora, arrepiando-a inteira. Era estranho ouvir aquele apelido sem ser com o som metálico de um telefone, mas ao vivo, com a voz fresca, era uma novidade que ela ainda não sabia se a agradava.
Saindo da porta dupla de vidro, estava Roberto. Ele era bem mais alto do que se lembrava, e tinha um pouco menos de cabelo quando ainda morava com ela, agora estava comprido, destacando o preto dos fios. Dava para perceber que o tempo e o trabalho em excesso deixaram marcas de cansaço e preocupação em seu rosto, mas ainda havia o charme do qual sua mãe falava quando contava da juventude deles.
Usava roupas sociais de forma despojada como antigamente, isso nunca mudou.
Ele se aproximou da filha com os braços abertos e o sorriso largo onde dava para perceber seus dentes milimetricamente cuidados e brancos combinando com seu tom de pele, o mesmo tom que definitivamente não herdara. A garota deixou que o pai a abraçasse apertado e retribuiu o abraço, não com tanto entusiasmo, apenas porque a voz em sua cabeça disse ser o certo a fazer. A voz exatamente igual a de sua mãe.
— Estou tão feliz em ter você aqui! — ele disse, segurando os ombros da filha e admirando-a dos pés à cabeça. Os olhos do homem marejaram em emoção e sentiu incômodo em encarar diretamente o sentimento estampado em suas orbes, então desviou o olhar. — Está tão grande…
— É, acontece quando os anos passam — foi o que conseguiu dizer, arrancando uma risada do pai, embora não tenha sido com essa intenção.
— Como foi o voo?
— Longo.
— Você deve estar cansada — disse Roberto, apertando o ombro da filha. Todo toque dele era estranho para , mas ela tentava não se esquivar e ser educada, a voz de sua mãe ainda estava em sua mente. — Vou te mostrar a casa enquanto leva suas malas para o seu quarto, certo, ?
— Entendido, chef! — brincou , batendo continência, fazendo Roberto gargalhar. contraiu o cenho ao observar a cena.
Ao entrarem na casa, teve que se esforçar muito para não abrir a boca de tão impressionada que estava. A sala era linda, e era provavelmente do tamanho total do apartamento em que morava com a mãe e a avó, composta por um sofá branco enorme e um tapete igualmente grande. As paredes eram decoradas com quadros bonitos e antigos e diversas plantas secas e vivas estavam espalhadas estrategicamente, compondo a decoração rústica. A única coisa que fez torcer o nariz foi a cabeça de cervo pendurada em cima da lareira de pedras. Fora isso, todo o ambiente era impecável e aconchegante, não podia negar. Se segurou muito para não soltar uma exclamação positiva, não queria dar o braço a torcer.
Roberto mantinha a mão em seu ombro enquanto a guiava, como se tivesse medo de que, caso a soltasse, ela corresse de volta para o aeroporto. Ele não tirava os olhos dela, emocionado por finalmente poder tê-la por perto, como desejou por anos. Não foi o melhor pai do mundo durante toda a vida da garota, mas queria poder mudar isso e sua chance estava bem ali, não podia desperdiçar.
Saindo da sala, eles passaram por um novo cômodo que seria a sala de jantar, novamente com decoração mais rústica e uma mesa grande demais para uma pessoa que morava sozinha, em cima de (que surpresa!) um tapete igualmente grande. Tudo ali era grandíssimo demais, como se o homem tivesse algo a provar com tanta grandeza.
Atravessaram um corredor que dava para um portal curvado onde era a entrada da cozinha. Ela era, como todo o resto, bem espaçosa e com eletrodomésticos novos e refinados, apesar de ainda ter uma decoração mais rústica e sertaneja, como todo o resto da casa. Mas ali, em frente ao fogão e cantarolando uma música feliz estava a grande surpresa do dia.
— , essa é a Marta, minha cozinheira.
olhou chocada para a mulher na sua frente. Ela não devia ser muito mais velha que sua própria mãe, usava calça cargo bege e um tênis branco simples que, de alguma forma, combinava com a camisa azul clara. Um avental jeans protegia sua roupa e seu cabelo castanho estava preso com uma caneta em um coque feito às pressas, com apenas duas mechas mais curtas soltas moldando seu rosto. E nele estava um sorriso simpático e leve que quase fez chorar, sem saber muito bem o motivo. Ela parecia adorável.
A mulher limpou as mãos no avental e sorriu tão largo que seus olhos se fecharam. achou que Marta lhe daria um aperto de mãos apenas, mas foi surpreendida com mais um abraço. Não entenda mal, ela era brasileira, estava mais do que acostumada com abraços e demonstrações de afeto com toque. Todavia, estava no meio de estranhos, cansada, em um ambiente em que ela não queria estar, longe de sua verdadeira casa. Um abraço de uma desconhecida era a última coisa que queria naquele momento. Além de tudo isso, ainda estava em choque com o fato de Roberto ter um motorista e uma cozinheira. Já esperava pelo abraço dele, mas o de Martha a pegou de surpresa; ela não retribuiu.
— É um prazer finalmente conhecê-la — a cozinheira disse ao soltá-la. Parecia não ter se importado pela falta de reciprocidade. — Fiz torta de limão siciliano para mais tarde, seu pai disse que é sua sobremesa favorita.
Depois de alguns segundos de silêncio, Roberto empurrou de leve o braço de com o seu próprio.
— Diz alguma coisa, filha.
— Ahm… obrigada. É sim minha favorita — falou, um tanto perdida.
Agora o sorriso de Marta era de compaixão e compreensão, seja lá o que tivesse compreendido.
— Você está com fome, querida? Quer que eu prepare algo? — perguntou.
— Não, eu almocei no voo.
— Levarei ela ao Lark mais tarde, Marta — Roberto disse com uma piscadela.
— Ah, ela vai adorar! — a mais velha se empolgou, voltando a cuidar das panelas em seguida. — Agora vai conhecer o resto da casa, preciso dar atenção a isso aqui.
saiu da cozinha quase quebrando o pescoço por ainda estar olhando para Martha, achando-a estranhamente parecida com alguém, só não sabia quem. E o cheiro que saía das panelas era de fato delicioso e a deixou curiosa.
Porém não poderia continuar a tour sem fazer um novo comentário crítico enquanto subiam as escadas.
— Primeiro um motorista, agora uma cozinheira? É sério?
Roberto a olhou sem entender o que quis dizer.
— Sou um homem ocupado, . Por mais que eu ame cozinhar, não tenho muito tempo para isso.
— Isso é um gasto inútil de dinheiro.
O homem parou ao lado da primeira porta de um corredor comprido e encarou a filha, parecendo cansado. Seu tom era bem mais baixo quando voltou a falar.
— Eles precisavam de um emprego, . Eu precisava de ajuda. Está longe de ser um gasto inútil, acredite. — Ele abriu a porta. — Esse é meu quarto, ali no fundo tem o closet e o banheiro.
A decoração mudou muito da sala para o quarto, era mais aconchegante e mais pessoal, com tons puxando para o marrom. Poderia enxergar o pai dela ali, passando o final de semana assistindo aos jogos de futebol brasileiro e europeu que perdeu durante a semana; ele a contou que fazia isso em uma das primeiras ligações que fizeram quando ele se mudou há 6 anos, e achou a informação ridícula, porque pensava que ele sentia mais falta de futebol do que dela.
Seguiram para a porta da frente, onde era apenas um banheiro extra, mais completo que o do andar de baixo. A porta seguinte era o quarto de hóspedes onde tinha paredes brancas, um armário de madeira escura, uma escrivaninha e uma cama de solteiro, sem nada de decoração. Em frente à cama tinha um móvel apoiando a televisão e o videogame. Assim como o quarto do pai, aquele era uma suíte.
— Às vezes dorme aí quando vai me buscar tarde de algum lugar ou quando quer ficar jogando até tarde, por isso o Xbox. Quando dá, eu jogo com ele. Podemos jogar juntos qualquer dia.
assentiu, apesar de não gostar da ideia de um garoto estranho praticamente morando no quarto ao lado do seu. Ela soube que seu quarto estava ao lado porque só restou uma porta e quando seu pai abriu, se revelou um quarto todo branco e “cru”. As caixas com suas coisas, que chegaram alguns dias antes, estavam espalhadas pelo chão com suas malas. O quarto era grande, o que àquela altura não era nenhuma novidade naquela casa. Aquele quarto parecia um refúgio estranho em meio a toda essa situação, porque mesmo sendo grande, ainda parecia bem aconchegante. A luz natural que entrava pela janela ia do teto até quase o chão e dava ao quarto uma iluminação amarelada, e a fez se sentir aquecida conforme ela andava entre as caixas de papelão. Embaixo da janela havia uma espécie de parapeito para dentro do quarto onde poucas plantas e algumas flores decoravam o quarto e adicionavam um toque de cor e vida ao espaço ainda vazio e neutro.
O teto parcialmente inclinado dava ao quarto um certo charme e não atrapalhava em nada o seu tamanho. Pelo contrário, ele fazia com que se sentisse menos sozinha de alguma forma, como se menos espaço para ocupar ajudasse a se sentir mais em casa.
A cama era um pouco menor que uma cama queen e parecia tão confortável que foi uma tarefa quase impossível resistir e não deitar no mesmo instante. A roupa de cama branca perfeitamente arrumada e o cobertor rosa suave a convidaram para se aconchegar nelas e esquecer por alguns instantes que ela estava há milhares de quilômetros de distância das pessoas que mais amava.
Ao pensar nisso, ela afastou a mão do tecido macio e perfumado e lançou um breve olhar para Roberto, que esteve observando-a durante todo o tempo com um sorriso no rosto. Sentiu-se imediatamente culpada por ter gostado do quarto.
— Esse é o seu. Sei que parece sem graça agora, mas não quis decorar muito sem te consultar antes, então podemos sair para comprar mais móveis e decorações, mais roupas de cama… — Ele apontou para um dos poucos móveis no quarto, uma estante larga e alta com sete prateleiras. O móvel, na verdade, foi a primeira coisa em que reparou no quarto, mas não quis demonstrar tanta animação na frente de Roberto. — Sua mãe me contou sobre seu hábito de leitura, acredito que metade dessas caixas sejam livros seus, então tomei a liberdade de comprar uma estante. Se não couber todos eles…
— Não tenho tantos livros assim ainda, só essa é o suficiente. — Então, para não parecer tão mal educada, completou: — Obrigada.
Roberto sorriu, sentindo um pouco do peso sair de seus ombros e permitiu relaxar um pouco.
— Vamos lá para fora, não vejo a hora de te mostrar o nosso…
Um toque de celular interrompeu a fala do homem. Ele puxou o aparelho de seu bolso e olhou desapontado para a tela. já pressentia o que estava por vir e não podia dizer que ficou surpresa, pelo contrário: achava que havia demorado até demais.
— Preciso atender isso, filha, mas prometo que quando eu acabar eu te levo lá fora, ok? Ainda tenho muito o que te mostrar.
O homem a deixou sozinha no quarto e foi atender a ligação em seu escritório na outra extremidade do corredor, uma das partes daquela casa que ela ainda não conhecia. sentou-se na cama e olhou em volta. Sentia um misto de cansaço, desânimo e vontade de voltar para o aeroporto e seguir viagem de volta a sua casa de verdade. Ela queria chorar, mas pensou ser cedo demais para isso, afinal, tinha acabado de chegar, então pegou seu celular na mochila. Para sua surpresa (ou nem tanto), não havia nenhuma notificação a não ser por algumas curtidas em sua última atualização no Skoob sobre sua leitura atual, “Percy Jackson e o Mar de Monstros”. Decidiu, então, pegar o livro de dentro da mochila para ler enquanto esperava seu pai voltar e se distrair do fato de que agora era definitivo: estava há muitos quilômetros de distância de sua mãe e sua avó.
não sabia quanto tempo havia se passado, apenas que já havia alcançado mais da metade do livro e o sol que entrava pela janela da sala (para onde ela havia ido para não ficar em meio a bagunça de seu novo quarto) estava mais fraco quando seu pai desceu as escadas correndo com um sorriso amarelo.
— Desculpa, demorou mais do que eu imaginava.
fechou o livro e ficou encarando-o com desânimo. O homem limpou a garganta e esfregou as mãos, dando uma espiada pela janela.
— Acho melhor irmos ao Lark antes de escurecer, amanhã cedo te mostro o resto da propriedade, pode ser?
Sua filha apenas concordou e o seguiu de volta ao carro, dessa vez se sentando na parte da frente com ele. Roberto ligou o rádio e sorriu para a filha, dizendo que ela poderia escolher a música. Como tocava Fleetwood Mac, ela deixou como estava.
A The Lark Cafe era um espaço moderno, mas ao mesmo tempo muito aconchegante. Assim que e Roberto adentraram, o cheiro de café e pão doce invadiu as narinas da garota e ela já estava rendida. O lugar não estava tão cheio, mas as poucas cabeças se viraram para ver quem acabou de entrar. Roberto passou por um cara e o cumprimentou animado, indicando que ela era a filha que ele tanto falava; quis cavar um buraco e se enterrar, mas confessava que saber que ele falava sobre ela para as pessoas não era tão ruim assim.
O homem chegou no balcão com seu sorriso largo e encantador. A mulher do outro lado se virou animada, parecendo genuinamente feliz em vê-lo.
— Haley!
— Se não é o melhor fabricante de vinho do estado do Colorado! — ela brincou, fazendo-o gargalhar. — O de sempre?
— Você já sabe — ele falou. fez uma aposta com ela mesma de que “o de sempre” seria café preto sem açúcar e deu um sorrisinho breve quando viu Haley pegar o bule e despejar quase todo o líquido na caneca branca com o logo da Lark, sem acrescentar um grão sequer de açúcar.
A funcionária, então, se virou para e sorriu com doçura.
— E você deve ser a famosa ! — disse, sorridente. assentiu; era a terceira vez naquele dia que ouvia seu nome ser dito com sotaque e não podia negar, estava gostando. — É um prazer finalmente te conhecer. Seu pai vem aqui todos os dias e fala de você, faz mais de um mês que ele só fala sobre você vir para cá.
olhou para as próprias mãos encostadas no balcão e sorriu. Às vezes sentia uma certa culpa por ser tão dura e fechada com ele, principalmente em momentos como aquele em que pessoas aleatórias deixavam claro o quanto ele se importava com ela.
— O que vai querer?
A garota pensou por um segundo.
— Tem café com leite? Com açúcar.
— Claro! — respondeu Hayley com um sorriso largo e se afastou para pegar o necessário para a bebida. se sentou no banco do balcão e aproveitou para dar mais uma olhada no local.
Havia um grupo de jovens sentados nas poltronas e no sofá ao fundo do café. Estava tendo algum tipo de discussão, era possível sentir de longe a tensão do que acontecia ali. Por mais que uma parte de si estivesse muito curiosa para saber o que estava rolando, outra parte lhe lembrava que não era problema seu e que ela não deveria se apegar às pessoas e histórias daquele lugar, afinal, iria morar ali o mínimo que conseguisse e esperava voltar logo para sua casa. Seguiu essa sua linha de pensamento e tentou ignorar os barulhos que vinham daquela direção.
Não demorou muito para Hayley voltar com sua bebida quente e docinha, a qual ela bebericou e agradeceu a atendente. Seu pai, muito satisfeito com o próprio café, sugeriu que fossem para uma mesa e imediatamente levantou para segui-lo.
Foi tudo muito rápido: no segundo em que levantou da banqueta sentiu algo se chocar contra ela. Houve uma exclamação coletiva de quem presenciou a cena. A xícara se desequilibrou de sua mão e todo o café foi derramado, caindo no que a atingiu. ficou em choque por um segundo até perceber que se chocou com uma pessoa e o moletom dessa pessoa estava todo marcado por sua bebida quente. Só depois reparou no rosto do menino que se esforçava para não encostar o moletom em sua camiseta, mas não focou tanto nisso. O garoto olhava bravo para o estrago que ela havia feito.
— Ah, meu Deus, me desculpe! Que merda, droga! — exclamou, misturando inglês com português e tentando pegar o máximo de papel possível para ajudar a limpar a roupa do garoto já que a sua saiu quase ilesa, atingida apenas por alguns respingos.
Ele finalmente a olhou pela primeira vez. Parecia confuso, tentando entender as palavras que ouviu e tentando reconhecê-la; teve a certeza que nunca a viu antes e que aquele idioma não era nenhum que conhecia. Estava intrigado, mas não era momento para aquilo, os problemas em sua cabeça eram muitos para se deixar distrair. Além do aroma forte de café vindo de sua roupa, o que o fazia lembrar que ele precisava ir embora.
— Está tudo bem… — resmungou.
— Não está não, me desculpe mesmo, eu não te vi! — justificou-se, passando o papel na parte molhada da roupa. — Me deixe secar, se quiser posso levar para lavar e…
— Eu já disse que está tudo bem! — exclamou o garoto, segurando o braço de e afastando-a dele. Em seguida, apenas se afastou e saiu do café um tanto enraivecido.
Os ombros de cederam. Ela tinha a impressão de que aquela raiva não era culpa dela, afinal, ele estava na discussão que ela ouvira há pouco, mas também sabia que não havia ajudado a melhorar as coisas.
Preocupado, Roberto deixou seu café na mesa escolhida e se aproximou da filha.
— O que houve? Você está bem?
— Estou — falou ao olhar com desânimo para sua xícara vazia. — Mas meu café…
— Não se preocupe com isso, já fiz outro — disse Hayley quando apareceu do outro lado do balcão, entregando uma nova bebida quentinha para . — Por conta da casa.
e Roberto agradeceram a gentileza da atendente. Enquanto Roberto voltava para a mesa, olhou para o grupo onde antes estava o garoto em quem ela derrubou o café. Todos a olhavam curiosos e cochichavam algo entre eles, o que a fez se sentir extremamente desconfortável. Voltou para a mesa, mas não se sentou.
— Podemos sentar lá fora? — pediu, indicando as mesas que ficavam na calçada da Lark.
O homem pareceu confuso no começo, mas bastou uma olhada para os jovens atrás da filha, sussurrando coisas no ouvido uns dos outros, para ele entender tudo. Ele concordou sem questionar e a acompanhou até o lado de fora. Por todo o curto caminho, redobrou a atenção para não derrubar nada em mais ninguém.
Tomaram suas bebidas em um silêncio levemente constrangedor, isso porque não conseguia parar de pensar no que havia acontecido a pouco em suas primeiras horas naquela cidade. Já Roberto, honestamente, só não sabia o que conversar com uma garota adolescente que tudo o que sabia era que ela era sua filha, gostava de ler e era obcecada pelo Harry Styles — ainda não sabia se de forma saudável ou não.
— Você quer ir em alguma loja? Passear pela cidade?
olhou surpresa para o pai, já que não o ouviu dizer nada por longos minutos. Pensou primeiramente na livraria que viu quando chegou na cidade, foi a única coisa que chamou sua atenção durante todo o trajeto. Porém estava cansada, com jet leg e sem humor para passear. Queria deitar na cama reservada para ela na casa de seu pai e sonhar que estava de volta ao Brasil, em sua cama de verdade.
— Eu estou um pouco cansada, na verdade… será que podemos voltar para sua casa? Tenho muito o que arrumar ainda.
Foi perceptível a decepção de Roberto, ele sentia que havia falhado em tentar se aproximar da filha no primeiro dia, mas tentou se animar com o fato de que agora teriam muitos outros pela frente para tentar de novo. Ele concordou com ela e anunciou que iria pagar a conta e retornava em alguns segundos. No momento em que Roberto abriu a porta, ele deu espaço para alguns dos jovens passarem antes de entrar.
se levantou ao perceber que eram as mesmas pessoas que estavam com o garoto em quem ela derrubou café e foi atrás deles, que já estavam a alguns passos de distância. Eles pararam quando a ouviram chamar e se viraram surpresos. torceu para não errar nenhuma palavra em inglês e se esforçou para que seu sotaque não fosse assim tão perceptível.
— Vocês viram o que aconteceu lá dentro, né?
O trio era composto por um garoto alto de óculos e cachecol cinza, um loiro pouca coisa mais baixo que o amigo e claramente tímido e uma garota com ar simpático, mas que parecia apressada, sem querer perder muito tempo ali. Apesar disso, assim como os outros dois, ela parecia curiosa com a existência de e o que ela tinha a dizer. Os três assentiram.
— Se o virem, por favor, digam novamente que sinto muito, eu não o vi chegando mesmo!
— Relaxa — o loiro disse com um sorriso leve e simpático e uma voz tão serena que fez querer abraçá-lo. — Meu irmão não é rancoroso.
colheu aquela informação com muito interesse. Ela conseguia ver uma leve semelhança, mas muito leve mesmo.
— E Alex estava com muita coisa na cabeça, provavelmente não te viu levantar — a garota disse e, em seguida, estendeu a mão. — Sou Kiley, esses são Skylar e Nathan. — Apresentou-os de forma respectiva à sua esquerda.
Os dois acenaram com um sorriso e sentia-se muito grata por eles estarem sendo genuinamente legais com ela.
— Obrigada… Mesmo assim, poderiam só reforçar o pedido de desculpas? Não quero ficar manchada no meu primeiro dia aqui.
— Você é a , filha do Sr. , não é? — perguntou Skylar. Em resposta, encolheu os ombros e assentiu. — Bom, se vai morar aqui, então poderá pedir desculpas novamente na segunda-feira.
— Na segunda…?
Os três se entreolharam.
— No colégio — Kiley respondeu, sem entender a confusão da garota.
— Como sabem onde vou estudar?
Novamente o trio se entreolhou e, dessa vez, compartilharam uma risada.
— Se está morando em Silver Springs, querida, só há um colégio de ensino médio para ir.
arregalou os olhos e engoliu em seco. Em seu primeiro ano de ensino médio no Brasil, foi separada de todos os amigos que fez no ensino fundamental por ter ido para outra escola particular e mais cara, porque seu pai achava que seria melhor para o currículo caso ela escolhesse fazer faculdade nos Estados Unidos. Sozinha, ela não se adaptou e acabou sendo excluída pelos colegas, chegando a sofrer bullying. Ela estava para trocar de colégio quando sua avó adoeceu e seu pai aceitou ajudar mais financeiramente com o tratamento dela com a condição de ir morar com ele. Se ela não se adaptasse ao colégio de Silver Springs, para onde mais ela iria?
— Ei, não se preocupa — Nathan falou, percebendo a preocupação na face da garota. — Estaremos lá na segunda, não te deixaremos sozinha no primeiro dia, ok?
Aquilo não deixou mais aliviada, entretanto, ela estava muito grata pelo carinho dos três, então agradeceu antes de eles irem embora prometendo que se veriam depois do final de semana.
Roberto chegou com um saco de papel nas mãos, empolgando-se com os doces que havia comprado para a sobremesa. Seu sorriso se desmanchou quando percebeu a cara fechada da filha e seus braços cruzados. Ela havia levantado a guarda novamente, o que o fez suspirar de frustração.
— O que houve?
— Nada, vamos logo.
saiu andando em direção ao carro sem esperar o pai. O homem respirou fundo e a seguiu. Todo o trajeto foi feito em silêncio, com olhando fixamente pela janela com os fones de ouvidos na orelha e o som alto. Roberto nem ao menos tentou falar com ela, conseguia ouvir a música escapar pelos fone de tão alto que estava e teve anos de convivência com a mãe da menina (e a própria na infância) para saber que quando estavam assim, não adiantava nada tentar conversar. Mas quando chegaram em casa, ele a chamou antes que ela se trancasse no quarto.
— Pode me dizer o que eu fiz dessa vez?
arrancou os fones com impaciência.
— Silver Falls só tem um colégio? — ela perguntou, olhando-o nos olhos. Roberto parecia confuso.
— Sim e ele é ótimo! — ele respondeu, ainda não entendia o problema e como consequência, ficou mais aborrecida e incrédula.
— Você se esqueceu o que aconteceu ano passado!? Eu ia sair daquela escola horrível que você me colocou porque sofri bullying o semestre inteiro e minha vida virou um inferno!
— Eu não esqueci, filha! Mas a Silver Falls High School é um bom colégio, você não sofrerá bullying nenhum…
— Ah, claro, diz isso depois de me trazer para o país em que a cultura do bullying é uma das mais fortes!
A essa altura ela já estava elevando a voz e segurando o choro e o nó na garganta que só naquele momento percebeu estar preso em si durante o dia todo. Martha e , que estavam na cozinha, foram até a sala de estar entender o que estava acontecendo.
— Isso não vai acontecer aqui!
— Certo, porque você nunca erra, né, Sr. Perfeito? Será que finalmente vão te dar o prêmio de pai do ano?
— Acho que não, , já que aparentemente eu nunca acerto com você, droga! — ele gritou, passando as mãos pelos cabelos. — Eu só quero viver em paz com a única filha que eu tenho!
— Que não tivesse me largado com minha mãe quando eu tinha sete anos, então!
— Fiz isso por você!
deu uma risada sarcástica.
— Ah, claro, Roberto, a melhor coisa para uma criança é largar ela e se mudar para outro país. Ainda me obrigou a fazer o mesmo com a mamãe!
— Sua mãe concordou que era o melhor para você, ! Veja tudo o que conquistei aqui, agora eu posso te dar o melhor, você não entende isso?
— Não! — gritou. — Não e nunca vou entender! Não importa que merda você cultiva no seu quintal…
— Fale direito comigo, !
—… ou o quão grande seja a porcaria da sua casa! — ela berrou aos soluços, com as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto. Em um tom bem mais baixo, ela completou. — Eu não quero você. Eu quero a minha mãe e a minha avó.
Um silêncio absoluto se instalou no local. Roberto não tinha mais argumentos ou forças para brigar, seus próprios olhos estavam marejados e o nó em sua garganta estava doendo. Ele sentia que, se tentasse falar algo, só pioraria a briga.
Martha se aproximou de ambos com cautela.
— Por que não vamos comer? Uma boa comida sempre ajuda a acalmar os ânimos.
olhou bem para a mulher e sentiu seu corpo inteiro tremer de raiva. Ela negou e deu as costas para os presentes, batendo os pés com força em cada degrau ao subir a escada até seu quarto, onde ela bateu a porta com a mesma força.
Roberto olhou para as próprias mãos e constatou que também tremia de raiva. Ele as fechou e olhou para Martha, pedindo por ajuda em silêncio. A mulher trabalhava para ele há tempo suficiente para entendê-lo dos pés aos fios de cabelo no topo de sua cabeça; ela se aproximou e o abraçou, permitindo que ele chorasse em seu ombro.
— Eu não sei o que fazer, Martha! Nada funciona! — disse entre soluços, abraçando-a forte.
— Eu sei, querido, eu sei — ela respondeu, afagando suas costas como se ele fosse um bebê chorando porque queria a mãe. — Dê um tempo a , ela acabou de chegar e é tudo novo para ela.
O homem soltou o abraço, secando as lágrimas e olhando envergonhado para ; não queria que o mais novo pensasse que ele era um fraco. Odiava chorar na frente das pessoas por esse mesmo motivo.
— Acha que fiz a coisa errada em trazê-la para cá?
Martha negou no mesmo instante.
— Não e logo ela verá que é o melhor para ela, fique tranquilo. Agora vamos comer algo, ok? Depois faço um lanche para .
— Depois podemos jogar futebol no Xbox, eu deixo você ser o Messi desta vez — intrometeu-se , se aproximando dos dois.
Roberto olhou para os dois e sorriu com gratidão.
— O que eu seria sem vocês?